NACISISMO E A NOVA PSICOLOGIA QUÂNTICA DO SER

 

Nós, no Ocidente do século 20, vivemos em grande parte no que pode ser descrito

como uma cultura centrada no "eu" ou no "agora". É o que Christopher Lasch e outros

descreveram como uma cultura narcisista. Uma cultura que ressalta a importância do

"eu" e do "meu". O indivíduo, suas experiências, seus sentimentos, sua "felicidade" são

o centro das atenções, da verdade e dos valores.

Se algo faz com que eu me sinta bem, deve ser uma coisa boa.

Se algo é verdade para mim, deve ter alguma validade. "Toda verdade é uma

verdade para alguém", e meu ponto de vista tem um status especial por ser a minha

janela para a realidade. Minhas experiências são o que realmente importa, e eu deveria

ter quantas quisesse. Devo ser "leal a mim mesmo".

 

Eu faço as minhas coisas e você faz as suas.

Eu não estou neste mundo para satisfazer as suas expectativas

E você não está neste mundo para satisfazer as minhas.

Você é você e eu sou eu,

E, se por acaso nos encontrarmos, será maravilhoso.

 

O narcisismo é mais uma questão de auto-aversão que de auto-estima,2 sendo freqüentemente associado a sentimentos de vazio, inutilidade, O ser falso — As defesas do narcisismo se desenvolvem para fazê-lo se sentir melhor Ser sintomático Sentimentos que essasqualidades originam

Confiança na realização

Perfeccionismo

Grandiosidade — onipotência

Orgulho

Justificativa

Auto-envolvimento

Manipulação e objetivação dos outros

Vulnerável à vergonha, humilhação

Hipocondríaco, psicossomático

Inutilidade, autodepreciação

Isolamento, solidão

Depressão, inércia, inibição no trabalho

Ser real Qualidades verdadeiras do ser narcisista

Sentimento de vazio, pânico com enfraquecimento e fragmentação do ser

Necessidades arcaicas de relação: fusão, condição de gêmeo, reflexo e

transferências de idealização

Sentimento de raiva e mágoa diante do fracasso enfático das necessidades

arcaicas.

Procura, descoberta e desenvolvimento do ser real: capacidades inatas, identificação, ambições e ideais.

O narcisismo é uma doença do relacionamento, uma doença que surge da incapacidade de se formar relacionamentos significativos consigo mesmo e com os outros. Seu oposto é uma atitude perante a vida que salienta a importância de compromisso, envolvimento, amor, sacrifício e até, chegando a extremos, de martírio. É uma atitude que leva o indivíduo para além de si mesmo, para além de suas ilhas isoladas de experiência, de seus sentimentos e reflexões próprios, assentando-o no contexto mais amplo de vida e do relacionamento.

 

Obviamente, nem todas as pessoas dos países ocidentais levam vidas vazias e narcisistas. Muitas têm relacionamentos que trazem realização e conhecem o significado de compromisso, intimidade e sacrifício. Muitos têm tais coisas como ideal. Mas nosso modelo de nós mesmos, o espelho psicológico para o qual olhamos quando queremos saber quem somos e como devemos nos comportar, é um modelo narcisista que provém forçosamente da psicologia da pessoa vigente. Se queremos crescer para além desse modelo, precisamos crescer para além da psicologia sobre a qual ele está baseado.

A psicologia vigente repousa quase inteiramente num modelo do ser como algo que existe isoladamente a filosofia de Descartes e a física de Newton —, esse modelo foi verdadeiramente definido por Freud como uma psicologia da pessoa coerente e consistente. Por intermédio de uma vaga familiaridade com sua obra, muitos foram afetados por ela. Essa influência é tão grande que seria impossível separar a compreensão usual de nós mesmos da estrutura maior de sua visão inicial.

 

Conforme expressou um dos mais importantes psicanalistas freudianos ingleses numa conferência a que assisti recentemente: "Eu sou um ser para mim mesmo, mas um objeto para os outros. Para os outros eu sou uma coisa, um o quê, e os outros são objetos para mim".3 Toda a psicologia freudiana é uma psicologia do individual e suas "relações com o objeto".

 

O isolamento do ser por meio da psicanálise e da psicoterapia foi ainda reforçado pelo crescimento da psiquiatria clínica como disciplina científica tão importante quanto a neurocirurgia ou a clínica geral. Os psiquiatras tratam as pessoas como um sistema fisiológico isolado e encaram qualquer anomalia psiquiátrica como oriunda de desequilíbrios nesse sistema — desequilíbrios químicos no cérebro passíveis de correção por meio de drogas.

 

E essa ética, a ética geral do egocentrismo, deixou sua marca no pensamento de pessoas sem nenhuma experiência direta de psicanálise e congêneres, assim como a física de Newton coloriu o pensamento e a auto-imagem de muitas pessoas com pouca ou nenhuma experiência direta de laboratório científico. Tais coisas estão "no ar", são o metro com que medimos a nós mesmos e a nosso comportamento. Tornaram-se a base de nossa "psicologia popular".

 

O ser voltado inteiramente para si mesmo, sem nada a não ser ele mesmo como fonte de significado, verdade e valor, não recebe nutrição que o sustente. É como uma planta que foi colocada num vaso debaixo de um barracão de jardim em vez de lá fora, no solo e sob a luz do sol. Logo suas raízes secam, e as folhas murcham.

 

Deve haver algo além de nós mesmos para nos dar um senso de propósito. Há muito de louvável no detalhamento da obra de Freud e no desenvolvimento desta por seus seguidores. Seu trabalho de base na interpretação dos sonhos, sua articulação de importantes mecanismos de defesa (supressão, racionalização, projeção etc.) e sua análise básica dos estágios de desenvolvimento têm aplicação válida e duradoura para a compreensão da dinâmica da psique individual. Igualmente, há uma verdade evidente na afirmação da psiquiatria clínica de que alguns distúrbios do ser são o resultado de tumores cerebrais ou de desequilíbrios químicos. Mas isoladas, tais compreensões carecem de um contexto significativo.

 

Creio que um entendimento da natureza quântica da pessoa, solidamente fundado na natureza mecânico-quântica da consciência em si, poderá nos oferecer tal paradigma, colocando, assim, as bases para uma psicologia da pessoa completamente diversa, não narcisista.

 

A qualidade de entrelaçamento essencial da realidade quântica (incluindo-nos, pessoas quânticas), a visão quântica de que nosso lugar no aqui e agora, sem falar da eternidade, depende de aprofundarmos nosso relacionamento com os outros e do compromisso necessário para alcançá-lo — o conceito de que eu sou meus relacionamentos —, todas essas coisas exigem uma reviravolta total em nosso modo habitualmente egocêntrico.

A base essencial de qualquer compromisso é que somos definidos por certas coisas, que elas são em certo sentido aquilo de que somos feitos. Um senso de compromisso requer um senso íntimo de "estar em casa" com aquelas coisas com as quais iremos nos comprometer — sejam valores espirituais como "verdade" ou

"beleza", ou relações interpessoais ou sociais (amigos, família, comunidade, país), ou a própria natureza.

 

Evidentemente, os freudianos discutem a importância dos relacionamentos interpessoais, do compromisso, da mediação, da conciliação e do respeito por outras pessoas; porém, ao fazê-lo, suas próprias experiências enquanto seres humanos contradizem sua teoria e expõem sua fraqueza. Corno podemos mediar ou conciliar com objetos? Como respeitá-los, e que base teríamos para qualquer compromisso com eles?

Eles são inteiramente distintos de nós.

Da mesma forma, o modelo freudiano de pessoa não coloca as bases para um compromisso com a natureza ou valores espirituais. Sua "psicologia científica" procura uma compreensão do ser como entidade biológica semelhante a plantas e animais, mas sua interpretação mecanicista da própria biologia empresta um aspecto determinista e algo brutal, tanto para nós mesmos quanto para nossos camaradas biológicos.

Os animais, argumentou ele, incluindo os seres humanos, têm seu comportamento movido pelos inseparáveis instintos do sexo e da agressão. Nos humanos, estes instintos controlam as forças escuras e hidráulicas do id e são a causa subjacente, inconsciente de tudo o que fazemos. Elas nos prendem à natureza e nos aprisionam ali, feras entre feras.

Para o próprio Freud não há como firmarmos um compromisso com a natureza, com a fera interior. A tarefa da consciência — o ego — é suprimir e transcender esses escuros instintos por meio do poder da racionalidade. Daí seu famoso aforismo: "Onde foi o id será o ego". E, no entanto, essa mesma renúncia, sobre a qual repousa nossa civilização, nos envolve num conflito trágico e impossível.

 

 

Portanto, nossos valores espirituais são um compromisso prudente e conveniente. Não há como nos comprometermos com eles. Eles não são o material de que somos feitos, mas, antes, o vestuário (bastante desconfortável) com o qual cobrimos nossa verdadeira natureza. Sua retirada solta a fera dentro de nós e destrói nossa civilização.

"Se a existência realmente precede a essência", diz ele, "não há como livrar-se do problema, explicando as coisas através de uma natureza humana determinada ou fixa.

Em outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Por outro lado, se Deus não existe, não encontramos valores nem mandamentos aos quais recorrer para legitimar nossa conduta. Assim, na brilhante esfera dos valores, não temos desculpas para o que está antes nem justificativas para o que está adiante. Estamos sós, sem mais desculpas."

 

"Eu" não sou nada além de minhas escolhas, de minha capacidade plenamente necessária de fazer escolhas e criar valores, mas as escolhas exatas em si são desnecessárias ou mesmo sem fundamento. Não há razão para elas, nenhum imperativo moral ou natural subjacente dizendo que devem ser de um tipo ou de outro. Assim, posso escolher o compromisso com alguém ou com um determinado conjunto de valores hoje, mas, exatamente da mesma forma, poderei escolher algum outro amanhã. Defino-me à medida que vou indo, e nada, nunca, precisa ser fixo.

 

Em primeiro lugar, o ser quântico tem em termos sartrianos tanto essência quanto existência. Eu existo de fato enquanto pessoa com uma identidade, um caráter, um estilo — alguns destes influenciados por predisposições hereditárias — e as coisas que faço e os relacionamentos que tenho "permanecem".

 

Portanto, de fato eu vou me fazendo à medida que vou indo, cada novo relacionamento altera e parcialmente redefine o ser que eu sou, mas nunca sou a tabula rasa que Sartre propõe, nem meu passado está perdido. Na verdade, é isso o que dá significado e propósito ao compromisso. Se compromisso é o processo pelo qual algo se torna parte de mim, este "mim", ou ser, deve ser uma coisa capaz de receber algo e reter este algo. Deve ter uma "essência".

Da mesma forma, o compromisso entendido em termos quânticos não pode ser uma coisa solitária, como são a catexia de Freud e a escolha existencial. Não é algo dirigido para os outros nem projetado sobre os outros, mas um ato de fidelidade ligado com outros como parte fundamental da definição do próprio ser, uma parte fundamental de sua própria natureza enquanto sistema sempre ocupado em relacionamentos criativos. Se tenho um compromisso com você, reconheço que somos, eu e você, materiais da mesma substância, que seu ser está entrelaçado ao meu para todo o sempre.

Tal entrelaçamento tem sua base física no fenômeno singularmente quântico da nãolocalidade, a correlação a distância de sistemas quânticos aparentemente separados, e a coalescência, a capacidade que os sistemas de bósons têm de se fundir partilhando de uma só identidade.

 

Portanto, como ser quântico, tenho uma base para um compromisso com todo o mundo da natureza e da realidade material. Somos todos, basicamente, "farinha do mesmo saco". E o mesmo pode ser dito em relação aos valores espirituais como o amor, a verdade e a beleza. Numa visão quântica, tais valores não são meras projeções do meu ser, sublimações de um lado escuro e inaceitável de minha natureza . Eles têm uma existência própria que brota de sua natureza básica enquanto "inteirezas relacionais" — coisas que criam relacionamentos em seu ser —, e essa natureza é, coincidentemente, a mesma que a minha.

 

 

A verdade é a criação de uma correspondência, um relacionamento entre elementos da realidade e entre esses elementos e a própria realidade.

 

Em meu próprio ser, que retira sua existência da criação de inteirezas relacionais, sou por natureza uma criatura feita da mesma substância que o amor, a verdade e a beleza. Não porque eu os tenha criado, mas porque a natureza de minha consciência é sinônima da natureza de seu significado.

 

Todos os sistemas quânticos do Universo, inclusive nós mesmos, estão entrelaçados (correlacionados e enredados) em alguma medida. Mesmo o vácuo quântico está repleto de correlações.
Tal entrelaçamento básico é a essência da realidade quântica. Mas esses mesmos sistemas também têm potencial para mais entrelaçamentos, para mais e mais profundos relacionamentos, e esse potencial é um aspecto importante de uma psicologia baseada na natureza quântica da pessoa. Ele a dinamiza.

 

O pequeno e básico entrelaçamento de todos os sistemas quânticos nos dá uma base para o compromisso.

 

Cada um de meus relacionamentos íntimos, mesmo que muito breves, realmente "entra" em mim, realmente acrescenta ao menos um pequeno fio à tapeçaria do meu ser. Mas, assim como uma porção de pequenos fios não colabora muito para a feitura de um padrão completo numa tapeçaria, também um grande número de intimidades breves ou pequenas investidas em envolvimentos não ajudam muito na integração de meu ser ou de minha união com os outros. Assim dispersa, falta-me um tema, um cerne que tanto eu quanto os outros possamos reconhecer como parecido comigo. Tenho pouco fundamento, um cerne sobre o qual construir mais relacionamentos ou aprofundá-los. Esta é a situação da personalidade narcisista. Incapaz de sentir uma base para o compromisso com os outros, com a natureza ou com qualquer sistema coerente de valores, e, portanto, incapaz de sustentar qualquer relacionamento profundo, ela tanto

experimenta uma fragmentação de si mesma quanto o isolamento de uma comunhão mais ampla.

Mas, se estabeleço um compromisso com os outros (ou com a natureza ou com algum valor espiritual), eu me torno mais entrelaçada (mais unida) a eles através de uma espécie de repetição. A cada dia, de vários modos pequenos e grandes, renovo meu relacionamento com o outro, talvez por mais contatos e mais experiências partilhadas, pela memória e reflexão, ou ainda pela influência que meu comprometimento exerce sobre outros aspectos de meu pensamento e de meu comportamento. Repetidamente levo o outro para dentro de mim, reforçando, assim, padrões de excitação no substrato quântico de minha consciência, e, a cada repetição, o ser do outro vai se tornando mais uma parte do meu próprio ser, mais entrelaçado a outros aspectos desse meu ser. Nossas identidades se sobrepõem e nossas características pessoais tornam-se mais correlatas.


Tanto o relacionamento quanto eu mesma crescemos. "Eu" me torno um ser extenso, uma parte muito maior daquele eu-e-você. Da mesma forma, essa visão quântica do compromisso lança nova luz sobre as implicações de uma quebra de nossos compromissos. Se chego realmente a quebrar um compromisso, não é só ao outro que machuco, mas também a mim mesma. Um compromisso quebrado é uma retirada do relacionamento definidor criado por aquele compromisso, e o que perco é literalmente uma parte de mim. Perco a parte que é processo contínuo de eu-e-você; esse processo deixa de ser um fio unificador em minha

vida, um ponto de crescimento. Torna-se, em vez disso, algo parecido com uma parcela esquecida de minha infância, um subser muito desligado da estrutura central integradora de meu ser. Eu me fragmento.

Porém, como nada nunca está completamente perdido, como todo relacionamento de compromisso encontra-se enredado ao meu ser por todos os tempos, há sempre o potencial de renovação de um compromisso quebrado, de restabelecimento de um diálogo criativo com o eu-e-você passado, que o faz renascer, embora de forma diversa.

 

Como a base do compromisso é, em seu nível mais primordial, um sentido de estar "em casa" com o outro, um sentido de que ele é "algo parecido comigo", a facilidade com que estabelecemos um compromisso pessoal é muitas vezes maior nos casos em que já existem alguns atributos comuns — os membros de nossa família com os quais partilhamos tendências genéticas e um grande conjunto de experiências comuns, membros de um mesmo grupo ou de uma mesma cultura, com os quais partilhamos hábitos, linguagem e padrões de pensamento.

 

As pesquisas revelam, por exemplo, que os casamentos mais estáveis são aqueles entre parceiros que possuem personalidades e históricos parecidos. Eles já são em boa medida "farinha do mesmo saco". Isso se torna ainda mais obviamente verdadeiro no caso de mães e filhos, em que a identificação projetiva (o partilhar identidades) é a norma, e no caso de gêmeos idênticos, cujas vidas parecem estar quase que assustadoramente correlacionadas em muitos níveis.


Entretanto, salvo nesses casos extremos em que uma sobreposição e correlação consideráveis já existem quase como direito de primogenitura, algum trabalho ativo é necessário para os relacionamentos se sustentarem e se aprofundarem, mesmo em nosso grupo ou cultura. Isso pode assumir a forma sutil de uma adoção ou renovação de certos valores cultivados pelo grupo ou cultura — admiração por conquistas físicas ou mentais, desejo de ajudar outros que não vão tão bem quanto eu, valorização da liberdade pessoal etc., — ou pode ser expresso por intermédio de um comportamento mais organizado. A observância de rituais, aniversários e feriados, a repetição de hinos nacionais, orações, canções escolares ou estribilhos de torcida, a reverência por símbolos como bandeiras, rainhas ou presidentes, a leitura do mesmo tipo de literatura ou mesmo o gosto por certos programas de televisão — todas estas coisas estabelecem padrões na consciência que nos levam a uma correlação mais profunda com os outros de nosso grupo ou nação. Rituais semelhantes, porém particulares, existem e são observados por casais ou famílias. Na medida de nossa maior ou menor participação deles, nós nos sentimos mais ou menos alienados, mais ou menos vazios.


O mesmo princípio aplica-se ao efeito do compromisso em nosso relacionamento com a natureza ou com valores espirituais. Na medida em que me exponho à natureza, envolvo-me com ela — cavoco a terra do jardim, planto uma árvore ou cuido de uma planta, caminho pelas montanhas —, torno-me mais unida a ela e, portanto, mais "natural" dentro de mim mesma. Na medida em que ouço criativamente músicas bonitas, absorvo a essência dessa beleza (os relacionamentos que ela revela) e, ao mesmo tempo, dou ao valor "beleza" mais um ancoradouro neste mundo.

 

Como a base do compromisso pessoal é o sentido de que o outro de alguma forma faz parte de mim mesmo, um compromisso com pessoas estranhas fica mais difícil, mas não impossível. Afinal, realmente partilhamos de uma mesma natureza básica ao nível da consciência, de uma história filogenética e de um destino planetário com todos os outros seres humanos, assim como uma tênue correlação quântica subjacente.

 

Não faz muito sentido falar de um compromisso pessoal com alguém que reside em outro país e cuja existência desconheço, mas certamente poderei sentir um compromisso com as vítimas da fome no deserto do Sudão ou da enchente em Bangladesh após ver as imagens inquietantes de sofrimento pela televisão. Tais compromissos, porém, são mais transpessoais que interpessoais. Tem mais afinidade com valores espirituais como amor, verdade e beleza — por seu sofrimento — do que com meus relacionamentos imediatos, pessoais, com outras pessoas. O poder transformador de tais compromissos não está no fato de que a existência do distante estranho esteja em si entrelaçada à minha, mas no fato de minha tristeza por seu sofrimento renovar e reforçar meu "vínculo" com os valores transpessoais.

 

Uma psicologia da pessoa baseada na natureza quântica do ser enfatiza todos esses relacionamentos e assenta o indivíduo, em virtude de sua própria natureza, no mundo do ser.

 

Estar envolvida comigo mesma é, pela própria natureza do ser, estar envolvida com os outros. Ser já é, de início, ser em algo em que toda a realidade encontra expressão. Como disse Arthur Miller acerca da arte de Ibsen, Tchecov e dos gregos:

O atraente é que eram formas de arte que permitiam, ou mesmo exigiam, que a psicologia individual e a sociedade se movessem juntas numa ligação sem emendas, como acontece na vida, embora estejamos apenas semiconscientes disso. A água está no peixe e o peixe na água. Não há como separá-los.

 

Igualmente, uma psicologia baseada na natureza quântica da pessoa traz certas implicações morais básicas, implicações decorrentes internamente da própria natureza do ser — uma natureza que ele partilha, em seu nível mais elementar, com toda a realidade — e que lançam os alicerces para um novo tipo de ética da "lei natural".

 

O mandamento "ama a teu próximo como a ti mesmo" é impossível de ser cumprido; tal inflação de amor só poderá diminuir seu valor.

 

Embora poucos analistas ou psicoterapeutas tenham intentado tal procedimento, essa técnica terapêutica livre de valores vazou para a mente popular como uma desculpa generalizada para a visão de que quase toda forma de comportamento é aceitável, ou ao menos desculpável, quando se é "honesto" ou quando suas raízes estão nos desejos básicos ou históricos da psique. Isso ajudou a reforçar um perigoso relativismo moral e uma timidez servil em face do certo e do errado elementares.

Mas, numa visão quântica da pessoa, é impossível não amar meu próximo como a mim mesma, pois meu próximo sou eu mesma, sem sombra de dúvida, no caso de termos algum tipo de intimidade. Meu relacionamento com o próximo é parte de minha autodefinição, parte desse ser que eu amo, se é que amo a mim mesma.


Numa psicologia quântica, não há pessoas isoladas. Existem indivíduos, que possuem identidade, significado e propósito, mas, como as partículas, cada um é uma breve manifestação de uma particularidade. Essa particularidade está em correlação não-local com todas as outras particularidades e, em certo grau, entrelaçada a elas.

Tudo o que cada um de nós faz afeta todos os demais, direta e fisicamente. Sou guardiã de meu irmão porque meu irmão é parte de mim, assim como minha mão é parte de meu corpo. Se machuco minha mão, meu corpo inteiro sente a dor. Ao ferir minha consciência — ocupando-a com pensamentos maliciosos, egoístas ou maldosos — estou ferindo todo o "campo" não-localmente conectado da consciência.

 

Portanto, cada um de nós carrega como resultado de nossa natureza quântica uma tremenda responsabilidade moral. Eu sou responsável pelo mundo porque, nas palavras de Krishnamurti, "eu sou o mundo".

                                      Estudos em Psicologia Transpessoal

 

 

Na realidade mais profunda, além do espaço e do tempo, talvez sejamos, todos, membros de um só corpo.
- S
IR JAMES JEANS -

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